Ano 505, 1ª Meia-Lua de Jade.**
**━──────◅▻♢◅▻──────━

A primeira meia-lua de jade do ano divide o céu com o sol que acaba de nascer.

— Pegou a toalha?

Cíntia anda inquietamente pelo quarto.

— Peguei, mãe.

A voz de Cid oscila do agudo para o grave; ele coça a garganta.

— E a cidadania humana?

Cid puxa um colar com um cartão metálico pendurado no pescoço, expondo-o.

— Tá aqui. A senhora já perguntou três vezes.

A mochila começa a ganhar volume; sobre ela, um cobertor grosso de pele enrolado. Na rede frontal, vários sacos de juta, todos com ervas e plantas secas diferentes. Marcos coloca mais algumas raízes, finalizando com algumas bandagens.

— O pai colocou tudo aqui, ainda lembra, né?

Graves está na porta com a pequena Leonara nos braços.

— Cadê a coisinha feia do vovô? É, você é a coisinha feia do vovô…

Graves olha para os pés dele.

— Cadê suas botas, moleque?

— Pra quê? Eu odeio sapatos.

O velho ameaça um movimento com o cotoco. Cid se encolhe…

Prende a risada.

— Moleque dos infernos, segura a criança, humano!

Graves entrega Leonara para Marcos e pega sua picareta com a mão esquerda. O cabo de madeira corta o ar, mas encontra a mão de Cid, que a segura e, em seguida, abraça o velho.

— Vou sentir saudades, vô.

Graves fica sem reação por um momento. Quando o solta, os olhos lacrimejam. Ele limpa a lágrima antes que alguém veja, vira as costas e começa a andar para fora do quarto, resmungando.

— Moleque do diabo, onde já se viu segurar…

A voz de Graves se afasta junto de seus resmungos, enquanto um sorriso melancólico se forma no rosto do resto da família.

Cid abraça Cíntia com força, e a mãe começa a chorar copiosamente.

— Não chora, velhinha. Não é como se eu nunca mais fosse voltar…

Mal termina a frase sem fazer voz de choro.

Ele para na frente do pai com um sorriso e olhos vermelhos; a diferença de altura mal chegava a dois dedos. Ele abraça o pai e a irmãzinha em seu colo.

— Da próxima vez, eu já vou estar mais alto que você, coroa…

Um aperto forte no dedo. Seu olhar se direciona para a pequena Leonara, que segura o dedo do irmão. As lágrimas finalmente escorrem pelo rosto de Cid, pingando sobre o rosto da pequena, o “eu não quero ir” entalado na garganta.

Ele levanta o olhar para encontrar o pai mordendo o lábio inferior, segurando o choro enquanto as lágrimas escorrem. Cíntia chora ainda mais.

— Diabo de família chorona!

A família ri em meio às lágrimas quando a voz distante do velho Graves ecoa ao longe.

━──────◅▻♢◅▻──────━

Cid para na porteira e se vira para trás, olhando a família parada na varanda. O velho Graves é o único que se aproxima enquanto, desajeitadamente, manca, apoiando-se na picareta, agora na mão esquerda.

— Cadê sua picareta?

O velho fala, impaciente. Cid vira de lado, exibindo a ferramenta presa ao lado da mochila.

— Me dá essa porcaria.

Graves esbraveja, estendendo a mão.

— O quê? Não. Pra quê?

— Me dá esse negócio logo.

Cid solta a picareta e entrega para o avô, que a escora na perna e, em seguida, entrega a própria picareta para o garoto.

Ele arregala os olhos. Pegando-a, o olhar segue por cada vinco, cada marca no metal escuro, e a coloca ao lado da mochila.

O cabo de madeira corta o ar e se choca contra a canela de Cid.

— Agora vai embora, que eu não aguento mais ouvir sua mãe chorar.

Cid pula, segurando a perna, surpreso com o novo ataque do avô.

Ele não vira para trás. Um passo atrás do outro, o olhar mirando sempre o mais longe que podia, e cada passo parecia doer, parecia cortar a alma, como se seus pés nus nunca mais fossem pisar nessa terra que impregnava suas unhas.

Comentários (0)

Entre na sua conta para comentar.