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O som dos passos da freira ecoa pelo salão vazio da igreja.

Antes que Alfred possa reagir, dedos firmes agarram sua orelha.

— Onde você pensa que está indo, mocinho?

Ela dá outro puxão, sem piedade.

— Tenha respeito pelo solo sagrado, Alfredo!

— Ai, ai, ai! — ele se inclina, tentando acompanhar o ritmo dela. — Já entendi, madre Cecília!

O barão se recompõe, coçando a garganta. Ele ajeita o manto e limpa a dignidade ferida. Fecha as portas da igreja, deixando o capitão para trás.

— Estou procurando um anão. — Ele segue os passos apressados da madre.

Madre Cecília franze o cenho.

— Anão? — Ela balança a cabeça, parando por um instante. — Os únicos que entraram aqui hoje foram você… e um jovem casal.

A mão trêmula dela vai ao peito; a expressão de preocupação surge em cada fibra do rosto.

— Estavam à beira da morte.

— Algum deles era um mago de terra? — As palavras saem inflexíveis, frias, neutras.

Ele acompanha a freira pelos corredores estreitos.

— Sim. A jovem garota. — Cecília suspira. — Intoxicação por mana. Inclusive, quebrou o último invólucro de terra que tínhamos. Precisamos de mais um.

Alfred leva a mão ao queixo.

“Não faz sentido.”

“Se ela estava intoxicada, não poderia ser a conjuradora.”

— Madre, preciso vê-los.

Ela para diante de uma porta.

— Onde acha que eu estava te levando?

A madeira range. A porta se abre; as pupilas do barão se ajustam à claridade da luz do sol que invade o ambiente pelas janelas.

Cid repousa em uma cama simples; uma freira mergulha as mãos dele em água quente.

Madre Cecília se aproxima da perna do garoto, arregaça as mangas, expondo as tatuagens negras azuladas em seu braço. A água responde quando as tatuagens irradiam um brilho tênue; a água morna envolve toda a pele, circulando, limpando, purificando.

— Pobre criança… — Os olhos da madre lacrimejam enquanto ela continua a comandar a água.

Catherine descansa em outra cama, onde uma freira coloca pedras quentes sob os cobertores.

O corpo de Cid está imóvel, mal respirando. O sangue que recorrentemente expulsa em tosses é rapidamente limpo por uma freira.

Catherine respira com dificuldade leve, mas constante.

Alfred se aproxima da garota primeiro. Afasta o cobertor, puxa a manga da blusa.

Nenhuma marca.

Nenhuma tatuagem.

Ele se vira para o garoto; a freira se afasta e ele repete o gesto.

O sorriso morre.

Cortes antigos. Fissuras profundas. Pele calejada como pedra trabalhada. Os dedos escurecidos, gangrenados.

— Como esse garoto ainda está vivo? — ele murmura.

Ao se levantar, o pé esbarra em algo sob a cama.

Metal raspa no chão.

Alfred se abaixa e puxa da primeira vez; na segunda, com mais força, a ferramenta é arrastada e enfim descoberta.

Uma picareta. Manchada de sangue púrpura.

O mundo se encaixa.

Num movimento rápido, ele ordena:

— Senhoritas, nos deem licença, por favor.

As freiras assentem com a cabeça e se retiram do cômodo. Apenas ele e Cecília permanecem. Assim que a porta se fecha, ele puxa o capuz do garoto, revelando as orelhas espiraladas.

O sorriso que surge não é gentil.

É fascinado, como uma criança que acaba de ganhar um novo brinquedo.

— O antigo protegido do Marquês de Fres…

Madre Cecília leva a mão à boca.

— Um… mestiço?

Alfred se senta no chão.

E ri.

— Quatro dias de caminhada, de Fres até aqui… no meio de uma nevasca… carregando alguém… com uma picareta.

Ele ri mais alto, enxugando lágrimas dos cantos dos olhos.

— Nem um anão suportaria isso.

Ele se levanta, limpa a poeira do manto e recupera a postura.

— Peça o que quiser aos guardas. — O tom agora é frio. — Mantenha os dois vivos. Quando acordarem, me chame imediatamente.

Ele para na frente da porta antes de abrir, olha por cima do ombro.

— Enfaixe as orelhas dele. Não deixe ninguém descobrir.

A porta se fecha com um baque seco.

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Mansão do Barão de Hilda:

Dia 15 — Viagem rumo à capital

O salão de jantar é iluminado por cristais incandescentes. A longa mesa de carvalho acomoda a grande família com folga.

Os sete filhos de Alfred se encontram em seus habituais lugares fixos. Sagrados.

Lumi, o mais velho, vinte e dois anos, mago de vento.

Os gêmeos Milan e Mailon, vinte, fogo e água.

Atreus, dezenove, fogo.

Athos, dezessete, campeão.

Marcius, quatorze, dupla afinidade, água e fogo.

E Anabela, dez, sem afinidade mágica.

— Como foi a expedição à masmorra, Lumi?

Alfred forra o guardanapo no colo.

Lumi bufa.

— Como vosso pai acha que foi? Milan e Mailon brigaram o tempo todo… e Atreus…

O olhar dele fuzila o irmão cochilando com os talheres na mão. Um pedaço de purê voa e acerta o nariz de Atreus, que desperta num salto.

— Viu, pai? — Lumi aponta com o talher na direção do irmão. — Da próxima vez, me deixe levar Athos comigo. Pelo menos ele ficará acordado.

Alfred ri.

Milan e Mailon já começam outra briga. Atreus volta a dormir.

Um puxão tímido na manga.

— Estou com saudades da mamãe…

Alfred pega Anabela no colo.

— Ela chega em três dias… — Ele afaga os cabelos da filha. — Agora que as épocas das nevascas passaram, ela vai chegar rapidinho. Aguenta firme, minha princesa.

O olhar dele vai até Marcius, empurrando a comida pelo prato.

— E a academia?

O silêncio cai.

Atreus se espreguiça, o cabelo preto desgrenhado quase encostando na comida.

— Não entendo por que só o Lumi foi e agora o Marcius.

Milan e Mailon fazem um cumprimento exagerado, como se estivessem se vangloriando.

— Escola é coisa de nerd!

Lumi aponta o garfo para Atreus.

— E você não é nenhum gênio, irmão. Se é para dormir, durma em casa.

— Ele tá certo. — Milan mastiga. — Tu é tão burro quanto a gente.

Marcius esboça um sorriso, a idiotice dos irmãos o divertia mais do que ele podia admitir; Alfred aproveita a deixa.

— Por que não aproveita o final da nevasca e vai treinar com seu tio? Acredito que ele teria muitas coisas para te ensinar sobre combate.

Marcius esboça um sorriso cínico.

— Sério? Aprender com o tio Art? Como se eu tivesse mana o suficiente para fazer o que ele faz.

Athos interrompe, a faca em sua mão corta a carne como se estivesse deslizando suavemente.

— A última vez que treinei com ele, notei que não evoluiu nada. Ele se apoia demais nas capacidades físicas que evoluíram muito rápido, e está subestimando a técnica.

Alfred suspira, esfregando os olhos com a mão, enquanto Anabela se aproveita roubando a carne do prato do pai.

— Sua mãe foi vê-lo. Espero que ela tenha colocado um pouco mais de juízo na cabeça dele.

Mailon bate a mão da mesa a caneca dele cai no chão, os olhos de alfred o fuzilam..

— Ouvi os empregados falando que um ogro atacou o portão leste enquanto estávamos fora… Cara, como eu queria ter estado lá.

Milan complementa.

— Não sobraria nada pros betas.

Os gêmeos riem enquanto mastigam a comida.

Lumi balança a cabeça.

— Eu juro… eu desisto. — A última parte sai cansada, quase cuspida.

A porta do salão se abre com violência.

Um criado entra, ofegante.

— Barão… ele acordou.

O sorriso de Alfred desaparece.

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Campeões: são pessoas com altas capacidades físicas e desprovidas de poder mágico.

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