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Os soldados marcham em batalhões pela praça coberta de neve, avançando em direção ao portão destruído.

— ONDE ESTÃO OS MAGOS?!

O capitão berra, a voz rasgando o caos, enquanto sua lança falha ao tentar penetrar a perna do ogro.

— Merda… — rosna para si mesmo. — MANTENHAM A FORMAÇÃO! DISTRAIAM ELE!

Os homens obedecem. As linhas se fecham. Espadachins recuam, abrindo espaço para as lanças que formam um cerco.

O ogro ruge e avança um passo; o braço livre gira, tentando agarrar as lanças, mas a mão inerte balança, não responde, sangra.

A pele grossa começa a ceder sob a repetição dos golpes. Cada investida perfura a carne; sangue escuro respinga na neve.

Um grito ruge de cima da muralha. Um soldado ergue a cabeça e grita:

— MAGO DE FOGO!

O capitão não olha. Ordena:

— EMBAIXO, DERRETAM A NEVE!

Fogo explode à direita. O calor lambe a neve à frente do portão principal, derretendo-a, formando uma grande poça de água turva.

— NÃO PAREM! MIREM NAS ARTICULAÇÕES!

O chão começa a congelar novamente. Um soldado corre pelo flanco com uma corda em mãos e a arremessa para o outro lado da criatura. O grupo de espadachins, dividido em dois, a segura de um lado e do outro.

A corda se estica, os homens avançam para trás.

O pé áspero do ogro não escorrega no gelo.

— FAÇAM ELE CAIR!

O capitão avança, gira o corpo e arremessa a lança com força total. A ponta crava no olho da criatura.

O ogro cambaleia.

Um passo para trás e depois um para frente.

O tropeço na corda quebra o equilíbrio. O peso colossal cai para frente, e o monstro se choca violentamente contra o chão, fazendo a neve subir e a lança no olho transpassar o crânio.

Um urro no último suspiro.

Silêncio.

O corpo treme uma última vez e fica imóvel.

O capitão se aproxima, respirando pesado. O olhar se fixa no punho dilacerado da criatura.

Ele se abaixa, analisa.

Um recruta se aproxima, ainda pálido.

— Que caralhos fez isso?

O capitão observa o ferimento com atenção, estreito, profundo. Quase atravessou o pulso da criatura.

— Não foi lâmina. — franze o cenho. — Foi arrebentado. Será que brigou com outro monstro?

O recruta se abaixa ao lado.

— Lobos, talvez?

O capitão estala os dedos na testa do garoto com um peteleco seco.

— Tá vendo marca de mordida aqui, animal?

Eles se erguem e vão até os pés do ogro, com cicatrizes, mas sem ferimentos recentes.

— Se fossem lobos, teriam ido direto no tendão.

O capitão se levanta, batendo a neve que se acumula nos ombros.

— Estanquem o sangramento da criatura, mantenham o corpo aquecido. Não queremos que o sangue congele antes da mana se acumular no coração.

O olhar do capitão pousa sobre o pulso ferido mais uma vez.

— Seja o que for que fez isso, estava usando uma arma.

Uma voz grave e elegante ecoa atrás deles.

— Uma observação correta.

O capitão se vira num pulo e se põe em continência.

— Barão Alfred!

Alfred se aproxima com calma, o manto escuro contrastando com a neve clara. Seus olhos percorrem o corpo do ogro como quem lê um relatório.

Ele se abaixa, analisando o pulso completamente destruído.

“Espada… machado… não, as lanças mal conseguiram penetrar a pele, forte demais para um humano.” A mente de Alfred fervilha de possibilidades.

Ele enfia a mão na ferida, acompanhando a curva do buraco estreito. O cheiro forte queima o nariz; o recruta torce a cara.

— Estreito demais para uma enxada, uma picareta talvez?…

— O ogro estava lutando contra algo — o capitão diz rápido. — Não encontramos o outro combatente.

Alfred analisa o perímetro. Entre a neve suave, silhuetas distantes se destacam quase imperceptíveis. Ele caminha até elas.

— Ora… magia de terra.

Alfred desliza a mão pelas colunas de terra destruídas.

— Um subterra blindado, talvez? — arrisca o capitão.

Alfred se agacha, examinando o solo.

— Não. — ele balança a cabeça. — Não há túneis. O terreno está intacto. Provavelmente um anão.

O olhar afiado observa o padrão das colunas.

— Não estava atacando… — O olhar dele segue a fileira de colunas que se projeta na direção do portão da cidade. — Estava fugindo.

O olhar dele busca um rastro de sangue vermelho, mas não encontra.

— Mas não está aqui.

O barão para na frente do portão destruído. O vento frio entra por dentro do manto; um arrepio corre pela espinha.

— E o portão, capitão? Viu como caiu?

— Não, senhor. Detectamos a alta concentração de mana e nos preparamos. Quando chegamos, já estava assim.

Alfred observa o local; o olhar vaga do portão destruído ao cascalho no chão. Apenas uma área apresenta uma fina camada de neve, como se o solo tivesse sido revirado. Pedregulhos espalhados. O olhar flui até as paredes das muralhas, intactas.

— Nosso convidado acertou o portão — ele joga um pedregulho para cima e o pega no ar — enfraquecendo-o e depois… atravessou… — o dedo dele desenha um arco no ar. — …e caiu ali.

Eles se aproximam da fonte. Uma leve deformação na neve fofa. Alfred passa a mão sob a camada branca; indo mais fundo, ele encontra algo.

“Areia?”

“Muita areia.”

— Areia? — o capitão franze o rosto. — De onde veio isso?

Alfred sorri de canto. Uma deformidade no tapete de neve. Um rastro quase invisível que a nevasca tentava esconder. Ele afasta a neve; o rastro se torna vermelho.

“Aqui está o ferimento.” Os olhos afiados notam o padrão na neve. “Fratura exposta! Ele se arrastou, apoiando-se em algo… na picareta, eu presumo.”

Alfred, com um punhado de areia em mãos, a deixa escorrer por entre os dedos; então se levanta, livrando-se do resto da sujeira.

— Astuto. Triturou o solo para pousar sobre um colchão de areia.

— Que diabos teria tanto controle sobre a terra? — O capitão brada, curioso.

Alfred lança um olhar frio. A nevasca já começa a ceder.

— Eu já disse, capitão. Um anão.

Ele começa a caminhar em direção à igreja.

— Se ele tiver sorte, o padre Antony ainda não voltou.

Alfred contorna a lateral do prédio, espiando um beco vazio.

— Um homem de sorte.

Dá passos rápidos e volta para a entrada principal.

Ele empurra as portas pesadas da igreja. Elas se abrem rangendo, deixando um feixe de luz solar invadir o interior, agora que a nevasca passou.

Alfred dá um passo à frente.

— Onde está nosso pequeno intruso?

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