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Ellie cai no chão de joelhos.

— Não! Por favor… tem que ter um jeito.

Christopher coloca a mão trêmula sobre o ombro de Cid, os olhos lacrimejando.

— Por favor, garoto, salve minha filha. Eu não posso perder minha filha… não suportaria mais uma vez.

Cid estala a língua.

Por um momento, seus olhos veem a pequena Leonara sobre aquela cama; o punho se fecha em um tremor ríspido. Múltiplos buracos pequenos surgem, e o ar frio começa a entrar lentamente.

— Eu vou carregá-la até Hilda. É a única chance. Eu não sei se a igreja de lá vai conseguir ajudar, mas não posso ficar aqui vendo essa criança morrer.

A mão volta a ser precisa. Ele alcança uma corda no bolso lateral da mochila.

— Coloquem ela nas minhas costas!

Christopher puxa a corda de volta, os dedos tremendo, mas firmes.

— Eu não vou entregar minha filha para um estranho numa tempestade!

O olhar dele não é de desafio — é de pânico bruto. De alguém que já perdeu demais.

A garota solta um gemido fraco. O som corta o ar como uma lâmina.

Cid sobe a voz, bate o pé no chão. A terra responde. O solo treme, a parede racha.

— HUMANO DOS INFERNOS, QUER MORRER E LEVAR SUA FILHA JUNTO? — Cid agarra Christopher pelo colarinho. — AMARRA A DROGA DA CRIANÇA, AGORA!

A mulher vê a orelha de Cid escapar por baixo do gorro.

Antes que o homem pudesse reagir, Ellie pega a filha e a enrola no cobertor.

Cid joga a corda pela cintura e depois por cima do ombro, formando um colete nas costas.

Christopher hesita. A mão da esposa aperta a dele e acena com a cabeça… ele aceita, amarra Catherine firmemente nas costas de Cid. O pai e a mãe beijam a testa da filha. Cid anda em direção à parede. Ele para, vira o rosto.

— A tempestade deve passar em dois dias. Vamos estar esperando vocês em Hilda.

Um movimento de braço, e a terra obedece. A parede maciça se abre; assim que Cid passa, ela se fecha, assim como os pequenos buracos.

O frio o atinge como uma pancada seca. O ar rasga a garganta na primeira respiração. Os dentes batem antes mesmo que ele perceba.

O primeiro passo afunda até o meio do joelho. O peso nas costas puxa seu centro para trás.

Um sussurro fraco e melodioso soa no ouvido de Cid.

— Obrigada.

Ele olha por cima do ombro. A garota, ainda de olhos fechados, esboça um breve sorriso.

A passos largos, ele avança. A neve engole as botas; a cada passo, a sensação da terra desaparece sob o peso fofo e traiçoeiro. A magia sob seus pés vira um sussurro distante. A visão encolhe; ele não pode ver mais de 10 metros à sua frente.

O calor do corpo briga para não escapar pelas frestas das roupas de pele. Cada rajada de vento rouba um pouco mais.

O nariz começa a queimar.

A perna afunda mais uma vez.

Ele pragueja, arranca duas armações de madeira da lateral da mochila e as prende às botas com dedos rígidos e desajeitados. Os pés ainda afundam, mas agora ele não desaparece a cada passo.

O som da neve fofa logo se torna natural aos ouvidos.

O sol começa a se pôr; a visibilidade é reduzida. Cid perde completamente a noção do tempo.

As pontas dos dedos já não pareciam pertencer à própria mão, que há horas ele não sente mais.

— Mais um passo, mais um passo… — a cada avanço ele volta a entoar, como se fosse um mantra. — Mais um passo.

O nariz e as bochechas, que antes queimavam, agora já não eram sentidos, assim como as orelhas sob o gorro.

O som da neve sendo compactada já era ignorado pela audição.

A mente oscila, vagando no subconsciente. O olhar se perde, como se visse a própria casa logo à sua frente, mas ela nunca chega.

O sol já não era mais que uma lembrança pálida atrás da cortina branca. Cid não sentia as pernas; elas eram apenas estacas de ferro movidas por pura teimosia. O peso de Catherine nas costas era a única coisa que o mantinha ancorado à realidade.

— Mais um passo… mais… um… — a perna treme, o coração desacelera — passo.

— PIVETE!

O grito estourou dentro do crânio, ensurdecedor, trazendo a consciência de volta à superfície como um soco. Então ele escuta o som.

Um estalo rompe a árvore à frente. Por um momento, o som é mais forte que o soprar da neve da tempestade.

Cid ergue o rosto, os cílios pesados de geada. A silhueta grande e robusta se põe diante dele, com o dobro da altura. Os olhares se cruzam.

— Tá de sacanagem!

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